O Homem Errado

19/02/2010

No Elevador

Filed under: Contos Errados — Chico Freitas @ 16:05
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Eles moravam no mesmo edifício há anos, mas nunca tinham se falado. Ele sabia exatamente quem ela era. Sabia que ela falava Francês e Italiano. Sabia que já tinha tido três namorados diferentes desde que morava naquele prédio, o último deles gostava de comida japonesa e devia ser caseiro (pois sempre pediam delivery).

Ela não sabia da existência dele. Na verdade, ela chegou a se perguntar uma ou duas vezes quem seria o dono daquele Gol que tinha um amassado na porta desde sempre e nunca consertou.

Num domingo à noite chegaram em casa ao mesmo tempo. Ele, vindo da locadora, louco pra chegar na TV e assistir “Um Virgem de 40 anos” sozinho, com pipocas. Ela, banhada em lágrimas e maquiagem borrada pelo namoro que tinha acabado cerca de 10 minutos atrás.

A vaga dela era mais perto do elevador, que já estava lá no térreo. Ele, desajeitado, estaciona o carro de qualquer jeito e corre quando vê a porta do elevador se fechando, consegue interferir na porta com o braço, se enfiando de maneira estranha.

Ela fica constrangida de não ter tentado esperar por ele e esconde o rosto manchado pela maquiagem. Ele fica feliz de ver quem é sua companhia naquele transporte vertical e curioso por que ela tenta se esconder atrás de uma das mãos, ineficientemente.

Ele procura algum assunto pra puxar, mas não consegue fugir de clichês como o calor que está fazendo e prefere ficar calado. Ela começa a pensar que o elevador está demorando mais do que o normal. O elevador pára.

Ficam no escuro, torcendo pra que a energia volte nos próximos cinco segundos, o que não acontece, até que ele começa:

- Hoje deve ser meu dia de sorte.

- hahahaha. É o meu dia de sorte, pode ter certeza. – ela diz, agora sem tentar esconder o rosto manchado, se aproveitando do escuro.

- Você é a Cléo, não é? Como a atriz, Cléo Pires?

- Sou sim, na verdade meu nome vem de um livro do Roberto Freire, Cléo e Daniel, já leu?

- Na verdade, não. Sou Jorge, do 306. Jorge como, humm, Jorge Ben, sabe?

- hahahaha. Sei, sei. Então você é o dono do Gol amassado desde sempre?!

- Er… Marquei o conserto pra amanhã, juro. Complicado, essa vida é uma correria.

- Verdade, nem me fale.

Conversaram por mais alguns minutos. A conversa evoluiu de certa forma que eles até esqueceram que estavam num elevador e nem tentaram gritar por socorro. Ele ficava desejando que tivesse mais claro para apreciar a beleza dela e ela falava pelos cotovelos, das dores do mesmo.

- Só eu falo! Você é muito calado.

- É que não andei terminando nenhum relacionamento nos últimos minutos. – disse sorrindo com o canto da boca – Sua vida parece bem mais interessante no momento.

- E eu fico aqui me abrindo pra você. Depois que eu acabar, o que que resta?

- Pra abrir? Não sei, talvez um zíper. Ou dois…

- hahaha. Você ta demais. Apareceu na hora certa. Como nunca tinha notado sua presença por aqui antes?

- Não costumo chamar muito a atenção das mulheres. Provavelmente se não fosse esse elevador quebrado, ainda não teríamos nos conhecido, assim como nos últimos quatro anos.

- Quatro anos? Isso tudo que moramos no mesmo prédio e não nos conhecemos?

- Antes tarde do que nunca.

Ele tocou o rosto dela com uma delicadeza exagerada e ela se sentiu exageradamente à vontade para a situação. Acabara um namoro a menos de uma hora e estava se sentindo tranqüila ao ser tocada por um estranho. Beijaram-se e quase imediatamente a energia voltou.

Ela agora estava mais constrangida do que antes. Ele não sabia mais o que falar, olhou-se no espelho e viu seu rosto manchado pela maquiagem dela e tentou rir, sem saber se era o ideal a se fazer no momento.

O elevador parou e abriu as portas no andar dele. O silêncio imperava e ele pensou em convidá-la para assistir o filme. Ela notou o rosto dele manchado e sorriu. Ele a encarou como se quisesse falar com os olhos, mas deu apenas uma piscadinha e a porta se fechou.

Depois disso, sempre que tem uma oscilação de energia, os dois correm pro elevador, sem saber ao certo o porquê.

Elevador

27 Comentários »

  1. ôoo que fofo =]

    Comentário por liana janna =] — 21/04/2009 @ 20:17

  2. Colega de trabalho: quer dizer que você fica entregue quando está bêbada, é?
    Duda: e, dependendo do cara, eu até me finjo de bêbada!

    Ou quebro o elevador… ;)

    Comentário por Duda — 21/04/2009 @ 20:24

  3. AAAh se os elevadores falassem… uasuahshsa ;p
    Sempre Perfeito!! Adorei!!

    Comentário por Veronica — 21/04/2009 @ 20:27

  4. muito bom… pra variar!
    se os elevadores quebrassem em horas tão convenientes como essa…

    Comentário por Lorena — 21/04/2009 @ 20:42

  5. Eu, que já estava na dor de cotovelo após assistir Orgulho e Preconceito, fiquei com inveja!

    Comentário por Juliana — 21/04/2009 @ 21:02

  6. Chiicos, adoro teus textos sempre e esse assim como os outros, tá muito bom! :*

    Comentário por Sarah — 21/04/2009 @ 21:06

  7. Nossa, adorei! hahaha
    sempre criativo, hein? adoro seus textos e a maneira como os escreve! :)

    Comentário por sophia — 21/04/2009 @ 21:17

  8. Ainda não tinha parado pra ler teus textos. Estou os vendo agora!
    kkkkkkkk Esse ta muito bom, chico!

    Comentário por Ana Cecília — 21/04/2009 @ 21:24

  9. no meu prédio o elevador é muito monótono! :(

    Comentário por amanda — 21/04/2009 @ 21:28

  10. as you know, adoro ler esses textos de frisson fast food, dá aquele friozinho rapidinho e gostosinho. :*

    Comentário por Burn — 21/04/2009 @ 23:28

  11. incrível, como era de se esperar.
    ótimo final, Chico. :)
    curti a maquiagem dela no rosto dele.
    =*

    Comentário por Diessika — 21/04/2009 @ 23:34

  12. vai dizer que foi com a vizinha do 702? ahhahahhaa

    Comentário por ricardo — 22/04/2009 @ 00:15

  13. aff..posso ser ultra super extra big sincera?

    Gostei naoo
    só pra nao falar que foi uma merda mesmoo
    sei la..nada contra..
    a historia eh legal..
    mas so pra tu encher teu ego ao confirmar mais uma vez que apesar da minha ex loirisse ainda sou meio lenta..
    nao entendi bulhufas do que essa historia quis dizer, mesmo porque sempre tem que dizer alguma coisa..ne?
    aff se puder explica por depo depois..viajei totall

    :*

    Comentário por lais — 22/04/2009 @ 00:54

  14. HAHAHAHAHA palmas! acompanhei desenvolvimento desse passo-a-passo… e o resultado final ficou mt bom! keep moving dude!

    Comentário por roger — 22/04/2009 @ 00:55

  15. queria um elevador desse no meu prédio, interessante seu textinho, como sempre :)

    Comentário por Joana — 22/04/2009 @ 00:58

  16. queria morar em prédio.

    Comentário por Burrrn — 22/04/2009 @ 01:09

  17. Legal. Muito bem articulado.

    O final não é previsível e bem interessante!

    Parabéns de novo!

    Abração!

    Comentário por Ney Lins — 22/04/2009 @ 02:31

  18. PQP.. tu és meu ídolo Chico. A mulherada em peso marcando presença nos comentários. Parabéns pelo texto!

    Don’t you love her madly.. don’t you love her and she is walking out the door

    Comentário por Jimbow — 22/04/2009 @ 05:49

  19. Sempre Muito bom!

    Comentário por JoY — 22/04/2009 @ 13:05

  20. eu sinto que tu tais começando a se achar, num é não coração? hahahahahahhaha

    Comentário por Naty — 22/04/2009 @ 15:51

  21. na hora certa ;)

    Comentário por C. — 22/04/2009 @ 15:55

  22. Chicoooo…Tu arrasa!!!!!!!!!
    Beijos

    Comentário por Nicole — 22/04/2009 @ 23:40

  23. Agora tas atacando dentro de elevador é, seu indecente?!

    ahahhahaha, brincadeira, meu pupilo. Adorei

    Comentário por Maria Carolina Ferraz — 22/04/2009 @ 23:58

  24. Isso aqui tá parecendo “Cartas do Forum”… muito wannabe pro meu gosto.
    E o mulherio desesperado como sempre.
    Simplesmente, patético.

    Comentário por Pffff... — 23/04/2009 @ 11:18

  25. Acho não,tenho certeza, de que as frases soltas foram bastante úteis hahaha.
    ”E eu fico aqui me abrindo pra você. Depois que eu acabar, o que que resta?
    - Pra abrir? Não sei, talvez um zíper. Ou dois…”

    pois bem,só tem tu Chico.
    Sempre com textos impecáveis e que prendem até o fim.
    Pensando bem,esses dois têm sorte por um imprevisto no que a vida costuma designar de: ‘na hora certa’. Gosto de leituras sobre as casualidades que mudam um pouco de,pelo menos, a rotina de alguém.
    Assim como foi com ele.
    Hora certa,no momento certo mesmo tendo que fazer uma forcinha pra aquilo lá se realizar:
    ”e corre quando vê a porta do elevador se fechando, consegue interferir na porta com o braço, se enfiando de maneira estranha.” Já que a vida dificulta, a gente dá o nosso jeitinho. No fim sempre dá certo né? hahahahaha. Até porquê aquela piscadinha foi garantia certa para não ‘elevar a dor’.
    ADOREI! Tu sempre surpreende e fica mais e mais indescritível com tuas crônicas, nasceu pra isso e não sabe…Quero ler ainda os livros, parabéns sou tua fã, tu sabe.
    beeijo wrong guy :)

    Comentário por ellen — 23/04/2009 @ 13:51

  26. bom texto.
    “tu sois um arrombado mermo!”

    vou deixar de ler esta porra pq só da mulher nos comentários. Tá parecendo blog de menina.

    Comentário por Gustavo (Santista) — 24/04/2009 @ 10:58

  27. tá, esse foi fofis! gostei que só (:

    Comentário por alice h. — 07/07/2009 @ 01:23


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