O Homem Errado

19/02/2010

Eu / Ela

Filed under: Eu / Ela — Chico Freitas @ 15:09

Esse é o primeiro capítulo da série Eu/Ela. Para acompanhar toda a série clique aqui

Pedi pra ela namorar comigo… Ela disse que não. Não sei se pedi muita coisa. Mas sei aprender. E fui tentando. Expliquei coisas que não precisava, que ela talvez nem quisesse saber. Inventei coisas que não sabia. E continuei.

Ela provou por a + b que eu era uma roubada. Que tenho um comportamento que lhe envergonha, que minha vida é desregrada e não sei o quê. Que a gente nunca daria certo. Estatisticamente. Comprovadamente. Ta no dicionário, vide a bula. Qualquer analista de qualquer análise dirá isso! E eu respondia: sim, e daí?

Toda vez que estávamos juntos me sentia mais leve. Ela dançava perto de mim e girava como nas aulas de geografia que falam de movimento de translação ou rotação, sei lá. Beijava meu rosto e me dizia “vem”. Nunca deixei de ir. E ela nunca deixou de vir.

Às vezes a gente brigava. Ela dizia que “assim ia embora”, com raiva. Eu a puxava de jeito, sem raiva. E com que jeito se pode tomar algo que já é seu? Mas ela dizia que não era minha. Devolvia lhe pegando bem. E a tomava. E a sentia. Logo ela ficava mole voltando para mais.

Quando sorria, eu via seus dentes completos. Tinha seus dentes no meu ombro, pescoço… Na minha pele. Minhas mãos estão marcadas nos seus braços e em outras partes. Reclamava que puxava demais seus cabelos ao fazer carinho. E eu queria  tirá-la da minha cabeça, mas puxar meus próprios cabelos não resolve.

Expliquei que tenho hiperfoco. Que sou hiperativo. Dizem que tenho um QI bacana. Essa expressão “bacana” ela usava bastante. Ela dizia que era o que meu médico receitou. E me deixou doido. Quando me provocava de várias formas eu dizia: você vai me foder. Ela sorria e fazia o que você está pensando. E eu era feliz assim. Feliz, feliz mesmo. Como é ser feliz? Era eu.

Um dia disse que eu não podia ser tão rico. Que era melhor trabalhar menos. Explicou: gostou de mim sendo pobre mesmo. Sem carro, de táxi e tomando cerveja barata. E se eu fosse muito rico talvez não fosse a querer mais. Concordei: se ficar rico vou ter educação, passivos trabalhistas, comer com o garfo, etc. Vou deixar de tratá-la como uma puta na cama e minha princesa em qualquer lugar. Talvez a tratasse como esposa e isso parece tão chato. Pararia de dizer putarias sem fim, e de vez em quando, realizá-las um pouco mais além. Iria ser um homem de bem ou de bens. Então peraê.

Precavido, pedi pra ela nunca  ir embora. Não me deixar, por gentileza. Contou que não se sentia bem consigo própria. Que tinha histórias mal resolvidas. Já senti isso tantas vezes e, por isso, fui compreensivo como nunca achei que seria. Até porque já usei tantas vezes esse discurso. Acho que no fim as pessoas se identificam. Os iguais se atraem. E o pior: se distraem. E fui isso: uma distração.  Ela era igual a mim, lembra? Tantas me distraíram, mas nenhuma tanto assim.

Ainda distraída, ela me explica o porquê da confusão em sua cabeça: ”Eu até um dia desses ia casar, ter filhos, etc e tal. Tinha noivo e agora estou aqui deitada com você, sem saber se vou ou se fico.”

- Você ia ter filhos bonitos?

- Com certeza!

- Te dou filhos lindos com dentes fortes pra nascer igual a jacaré: já mordendo.

Gostava do meu papo de bêbado. Do sem pé nem cabeça. E sorria inteira,  encaixada em mim,  enquanto fios de cabelo se espalhavam na cama e seus pelos cobriam minha perna.

Quando estava ficando bom, ela interrompia. Era sempre assim: ouvia mil elogios em seqüência já esperando o “masssssssssssss”. Então, quando tudo estava ótimo, quando EU já não me via de outra forma, escuto: Tenho que ir embora. Preciso ir embora.

- Vá, coração, prefiro que você se resolva logo.

- Coração é fogo!!!

- Tenho que recuperar minha canalhice. Porque no fim, eu to aqui e você vai embora.

Me despedi, sem querer, com toda a calma do mundo. Como quem explica algo natural, óbvio. Articulei bem as palavras e gesticulei pausadamente. Tentei organizar minhas idéias e acreditar que era melhor assim. Pensei rapidamente em dizer “te amo”, mas não acho que a amava. Apesar disso quis lhe dá filhos fortes, com dentaduras bem resolvidas e tudo mais. Quis ela ao meu redor em qualquer movimento. Quis ela comigo por mais tempo.

Enquanto levantava-se, pensei em fazer uma proposta e, se não funcionasse, uma contraproposta. Um pedido. Senti que era agora ou nunca. Sabe como é? A hora é essa. Masssssssssss fiquei calado. Como o cara que se alimenta do seu estômago, me alimentei do meu sentimento e fiquei quieto.

Enquanto se vestia não disse nada. Certa vez um bem-sucedido me disse que é preciso saber perder. E eu perdi deitado. Foi tudo tão rápido. Quando pensei melhor, repensei, quis levantar, a porta já estava fechada e já não ouvia  o som do seu salto alto. Mas o seu cheiro ainda estava comigo.

19 Comentários »

  1. foi melhor assim, uns sons de salto alto vao embora, outros se aproximam!

    Comentário por Perrusi — 02/11/2008 @ 19:35

  2. Butou pra fuder. fiquei quase de cu molhado.
    congrats.`

    Comentário por Bob — 02/11/2008 @ 20:19

  3. Se fudeu, otário! kkkk
    A vida ensina muitas coisas…
    Sempre nos interessamos pelas pessoas que não nos dao valor, nao damos assistencia e perdemos a pessoa que poderia nos fazer feliz mais nao consegimos enxergar. Ela parece n ter significancia
    QUANDO VC MENOS ESPERAR…
    Vai aparecer ” aqueeeeeela” q vai te dar aquela assistencia que vc tanto menos prezou, ou melhor a q vc nunca imaginou q poderia estar fazendo aqlo por vc,q vc deixou de conhecer como devia .

    Comentário por Mari Lopes — 03/11/2008 @ 08:40

  4. Caralho. Parabéns pelo texto.

    É foda perder, mas quando se percebe isso a realidade fica mais plausível. É quase uma catarse. E bote fé numa coisa: foda não só deixar ir, de se conformar, foda mesmo é saber que toda aquele sentimento, aquela paixão, aqueles planos futuros, aquele aperto no peito, VÃO PASSAR! Foda é isso, saber sem querer saber, sem querer esquecer, que já era, que vai passar! Como eh que pode, um sentimento tão forte, se perder no tempo? É FODA!!!!!!! É totalmente paradoxal a tudo o que se viveu.

    Já vi que você também desiste de quem desiste de você. Isso é uma merda. Bote pra fuder e vá atrás dela antes que seja tarde. Ou pelo menos, não deixa ela esquecer de você.

    Break on through

    Comentário por Jimbow — 03/11/2008 @ 11:25

  5. q lindooooooooooooooooo! :)

    mas acabou a historia???????? :/

    Comentário por nana — 03/11/2008 @ 15:02

  6. Já disse pessoalmente, ao telefone, por telegramas e cartas (rs) que adoro esse estilo moderno de uma narrativa cortada e veloz.

    Texto muito bom. A sensação que tenho é que chegaste bêbado de uma balada e simplesmente: saiu. Rs…

    Beijos

    Comentário por Laura Gallindo — 03/11/2008 @ 20:43

  7. Meu irmao, texto longo da porra…
    vou ler não, sem tempo!

    Comentário por caramelo — 04/11/2008 @ 16:00

  8. “Gostava do meu papo de bêbado. Do sem pé nem cabeça. E sorria inteira, encaixada em mim, enquanto fios de cabelo se espalhavam na cama e seus pelos cobriam minha perna.”

    Hahahahah isto que é um traveco peludo meu velho!!!!!

    Comentário por FR — 04/11/2008 @ 16:08

  9. sacanagem.. a pessoa carente.. lendo essas coisas.. pode não! hauhauaauh ;p
    amEi! como amei todoss! ja sou leitora assídua! ;)

    Comentário por Mayara — 04/11/2008 @ 20:17

  10. Adoreiiiiiiiiii… !

    Meio que Alfie esse carinha aí, neh?! hehehe

    Comentário por Teresa — 05/11/2008 @ 10:18

  11. Q texto lindoooooooooo

    Quero que um homem escreva um textos desses pra mim!!!!

    :***********

    Comentário por Paulinhaaaa — 06/11/2008 @ 12:57

  12. Meio piega…mas tá valendo.

    Comentário por Vitor — 06/11/2008 @ 15:41

  13. essa história não precisa acabar nesse post… keep moving dude!

    Comentário por roger — 09/11/2008 @ 22:31

  14. meu amor..
    Ao ler recordo-me de Dom Casmurro contando suas peripercias com a Capitu..

    Tú é ótimooo menino..

    ;*

    Comentário por laís — 26/11/2008 @ 21:36

  15. [...] Para melhor entender esse texto, leia o “Eu/Ela I” clicando aqui. [...]

    Pingback por Eu / Ela II « O Homem Errado — 31/12/2008 @ 01:47

  16. bravo.

    Comentário por Burn — 29/01/2009 @ 18:18

  17. ESTE AI É O FAMOSO TOCADOR DE FLAUTA, O VERDADEIRO PAPANGÚ!!!!!!!!!!!!!!!!

    Comentário por FELIPE GAIOSO LUCAS — 09/03/2009 @ 23:34

  18. “Certa vez um bem-sucedido me disse que é preciso saber perder. E eu perdi deitado. Foi tudo tão rápido.”
    é verdade!!

    Comentário por raquel — 21/08/2009 @ 09:05

  19. Comentário por Debora C. — 06/05/2010 @ 21:05


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