O Homem Errado

05/06/2009

O Fim de Semana (Im)Perfeito – Parte III

Filed under: Contos Errados — Chico Freitas @ 00:24
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Para melhor compreensão, ler antes O Fim de Semana (Im)perfeito I e O Fim de Semana (Im)perfeito II.

Carregados de emoção, os fatos ocorridos nas próximas horas demandariam descrições minuciosas, até certo ponto rebuscadas, incompatíveis com a narrativa até então empreendida.

Sendo assim, irei me socorrer da técnica brilhantemente utilizada por esse digníssimo blog para, através do youtube, ilustrar determinadas cenas ou sentimentos. Voltemos ao casamento.

Você entrega seu carro para o manobrista e entra na casa de recepções. Aquela escadaria nunca foi tão longa. Dentro de você, um misto de angústia, agonia, inquietação, como se estivesse lhe faltando alguma coisa.

Sabe quando você vai viajar e, ao fechar a porta do avião, sente que está esquecendo algo e não tem como voltar atrás? Pronto, esse exato sentimento, só que pior…

Tendo em vista seus tresloucados atos nas últimas 24 horas, você não tem cara, pelo menos por enquanto, de ligar para sua namorada que, por viver em sociedade, já tem informações suficientes para decretar o final do namoro, o que provavelmente ainda não foi feito porque você não atendeu o celular.

De fato, a essa altura, embalada pela pressão das amigas, que se arvoram na condição de baluartes da moralidade e dos bons costumes, ela deve estar se considerando solteira e, como tal, deve sair para balada. Tipo assim:

Amiga de namorada é um bicho complexo. Pode notar, os conselhos dados à amiga traída, enganada, trocada, magoada, são os melhores possíveis. “Você precisa se valorizar”, “ele não é homem para você”, “você consegue coisa muito melhor”, até aí tudo bem, elas estão cobertas de razão. O equívoco das amigas da namorada é indicar o comportamento que estas devem adotar: “não ligue pra ele”, “acabe”, “não perdoe”, “não renove”, “não tenha recaída”. Uma reação infantil tipo:

Certas ou não, essas dicas, geralmente seguidas pela namorada ferida e de personalidade fraca, são dadas por pessoas que nunca as aplicaram na própria vida. É o mais claro e hialino exemplo do ditado: “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”, como o sofrimento é alheio, impera o “pimenta no dos outros é refresco”. Mas isso foi só um desabafo. Voltemos ao casamento, de novo.

Ao adentrar no recinto, surge sua primeira meta: pegar um wishky. Nessa hora, ele talvez seja seu melhor amigo. Uma dose, nesse momento, se bem tomada, vai aliviar aquela estranha ansiedade, arrumar um lugar para você colocar a mão e amenizar os efeitos da voz estridente daquela vocalista gorda, de inglês impronunciável, astro principal da inaudível orquestra:

Passados alguns segundos, antes mesmo de encontrar alguém que mereça seu cumprimento, você analisa friamente a situação, e conclui: casamento é péssimo para quem está na fossa. O evento é a celebração da união entre duas pessoas que, supostamente, pensaram, pensaram, e decidiram viver juntos para o resto de suas vidas, e você está só. É o tipo de festa que é freqüentada, em sua grande maioria, por casais, e sim, você está só. Os namorados, os mais velhos, as “tias”, todos te verão no casamento e perguntarão: “e você?” E você está só, só esperando a primeira pergunta para mandar todos irem à merda.

Você encontra seus amigos, todos acompanhados. Todavia, em casamento existem regras, dentre elas, mulheres de um lado, homens de outro. Isso te ajuda. A conversa flui animada, encontro de velhos amigos, mas você, meio desatento, nutrido por numa esperança quixotesca[1], insiste em procurar nas mulheres da festa a sua namorada.

Noivo devidamente cumprimentado, copo vazio, você bate o martelo: terminando a próxima dose, eu vou para casa. Calado, sem dar satisfação, você para o banheiro pensativo. Na volta, pit stop no bar, você pede a saideira. Atendido, se dirige à roda dos amigos. Cabeça baixa, andando em linha resta, numa velocidade despretensiosa, você sente um perfume conhecido.

Deus só pode estar de brincadeira, 1:20 da manhã, quando você já decidiu ir embora, ela chega na festa com uma amiga sua. Mais linda do que nunca, ela passa por você, sem lhe ver, como se andasse nas nuvens. Sorridente, é bem recebida por todos, apesar da pouca intimidade com os noivos e seus convidados.

Sobre ela pairava uma áurea superior, de quem não ia deixar de prestigiar o casamento face aos absurdos por você cometidos. Dentre as possíveis e prováveis reações que poderia ter tomado, ela optou pela mais nobre e digna. Você, que já era pequeno diante da situação, está menor ainda, mínimo, microscópico.

Apesar de tudo, você reage da forma mais madura possível: fica tenso, começa a suar, vira a dose e volta pro banheiro. Lá, se olha no espelho, ajeita a gravata, checa o hálito – verdadeiro alambique – e pensa: “devo falar com ela?”

Sem a resposta, você entrega tudo na mão de Deus e, buscando disfarçar seu desconforto, pega sua quinta dose e vai para roda de amigos, que não falam em outra coisa.

Sorriso amarelo, você espera a poeira baixar. Mais cedo ou mais tarde, ela estará sozinha, é a hora de ir conversar.

2:13, ela vai no banheiro e você, discretamente, vai atrás. Sem pensar no discurso a ser feito, você a espera na saída, espaço de tempo em que termina a sexta dose.

Ela sai e dá de cara com você. Não mostrando surpresa, faz cara de séria e começa a escutar suas razões: “Tem certas coisas que eu preciso lhe dizer antes eu você saia andando. O que para você pode ter sido uma canalhice sem precedentes, para mim foi muito pior. Revelei-me mais infantil e desleal do que imaginava. Inadvertidamente, eu decepcionei uma pessoa que só me faz bem. Tenho consciência plena do que fiz e das conseqüências que terei de arcar, só queria que você soubesse: se pudesse voltar no tempo, estaria essa hora saindo do restaurante com você, escutando Moon River, com destino bem diferente do que covardemente escolhi”. Você espera mais ou menos essa reação:

De fato, você está triste, seu semblante atesta isso. Após dizer essas poucas palavras, você vai, lentamente, dando as costas, dessa vez, para ir embora.

Passando longe de dizer “you had me at hello”, ela responde: “Eu nunca lhe proibi de sair, sempre busquei lhe deixar livre. Você não tinha motivos para ter agido dessa forma. Eu fiz papel de palhaça perante todas as minhas amigas, que me ligavam da festa dizendo que você estava lá. Quem sente o que você diz sentir, não faz o que você fez.”

Sabendo da procedência das acusações, você tem consciência de que não terá palavras para consertar os danos causados pelo seu inconseqüente comportamento, mas pondera: “Sei que não estou em condições de lhe pedir nada, mas queria que você voltasse comigo, já bebi demais e não estou bem para dirigir.”

Reconhecendo seu talento para artes cênicas, ela diz: “você tem sorte, tenho um almoço amanhã e terei que acordar cedo. Posso até voltar com você, mas não vou dirigindo.”

Direto da saída do banheiro, vocês saem da festa. No carro, Moon River é soberbamente cantada por Frank e você dá o tiro de misericórdia: “sei que em 24 horas eu destruí uma história que prezava muito, mas não medirei esforços, nem tempo, para reconstruí-la”. Você diz isso de coração e fica feliz por constatar isso. Ela só escuta.

No trajeto, você conclui o que, inconscientemente, já sabia. Não há farra, festa, noitada, que supere a companhia de sua mulher. Na noite tudo é efêmero, passageiro, pura ilusão infantil. É uma vida vazia, que mais leva do que traz.

Apesar de novo, você não tem mais idade para ter esse tipo de atitude. Arriscar o amor de uma mulher feito a sua namorada denota uma flagrante imaturidade.

Deixando ela em casa, você se lembra do jantar da sexta, desejando ter uma máquina do tempo. Apesar do desejo quase incontrolável, você não tenta um beijo de boa noite, a probabilidade de sucesso é ínfima.

Ela desce, o farol a ilumina, você liga o celular…

13 chamadas não atendidas…

The end


[1] Leiam sobre a insuperável esperança de Dom Quixote de La Mancha…

17 Comentários »

  1. Adoreiiiiiiii!!!!Esse texto é o melhor…

    Comentário por Juliana G. — 05/06/2009 @ 01:07

  2. o fim de semana interminavel

    Comentário por Jo — 05/06/2009 @ 08:17

  3. Adoreei o video de Jerry Maguire…ilustra bem!! heheheh

    Comentário por Gaby — 05/06/2009 @ 08:36

  4. kraioooolho bixo… essa sequencia de textos ta muito boa. congrats!!!
    aew

    Comentário por zdnan — 05/06/2009 @ 11:20

  5. “No carro, pensativo, você sente falta das chamadas não atendidas. Sem elas, é como se você tivesse sem apoio, em queda livre. Passava uma certa segurança ver o número dela te ligando. Agora, você não tem mais isso, nem chamada não atendida, nem segurança..”
    rebusquei isso do outro,acho que encaixa com tudo de novo. Serve pra definir um quase-tudo de que,se tudo devolta, é uma prova do que o que é de verdade, por si só basta!

    “Os namorados, os mais velhos, as “tias”, todos te verão no casamento e perguntarão: “e você?” E você está só, só esperando a primeira pergunta para mandar todos irem à merda.”
    Verdade absoluta mas, o pior mesmo é quando você tá naquele almoço de reencontro dos amigos mais velhos dos seu pais, onde a regra é sorrir sempre, e vem alguém com essa típica, a vontade é mandar todo mundo se fuder hahahahaha! Muito bem lembrado :)

    “No trajeto, você conclui o que, inconscientemente, já sabia. Não há farra, festa, noitada, que supere a companhia de sua mulher. Na noite tudo é efêmero, passageiro, pura ilusão infantil. É uma vida vazia, que mais leva do que traz.”

    SENSACIONAL! Todo mundo chega nisso um dia, vai ver faz parte de todo caminho pra completar a trajetória no fim :)
    Tu é fera, e deve colocar mais séries hehehe, adorei.
    Estilo do blog,ou seja,fuderoso! Beijo.

    Comentário por ellen — 05/06/2009 @ 15:33

  6. Excelente texto!

    Abç

    Comentário por Felipe Haeckel — 05/06/2009 @ 17:19

  7. Putz: como assim vc não é o Fábio?!!
    hehehe
    Muito bom!

    Comentário por Aria — 05/06/2009 @ 17:50

  8. acabou mesmo assim o fds (im)perfeito?
    —————–
    pow, o texto ta mt bom…lembra a serie q passou na tv ha um tempao “comedia da vida privada”…axo q o nome era esse, vcs lembram??
    Massa essa estoria, mt real, inclusive!!!
    nao axam?
    SIMMM…cada uma das tres partes foi escrita por uma pessoa diferente ,foi?
    sucesso, galera!

    Comentário por moreira — 05/06/2009 @ 23:50

  9. ta doendo em mim.. eu quero chorar =T
    hahaha

    Comentário por TaiaToledo — 06/06/2009 @ 00:09

  10. Po, achei que fosse terminar feito novela! =/

    Comentário por Vital — 06/06/2009 @ 20:23

  11. acho que ela foi mt besta
    mt mt mt besta
    mesmo se ela morresse de amores por ele, ela com certeza n deveria ter sido tao boa!
    enfim..adorei…os textos..chicooo
    i love you
    but..
    esperava realmente muito mais da namorada dele..qtipo eles ate voltasse mas claro, tem toda uma frescura e teatro antes ne? passou essa!

    Comentário por lais — 06/06/2009 @ 23:14

  12. kkk o detalhe no final foi o melhor. 13 chamadas não atendidas..
    Resultado: o cara filosofou, sofreu bêbado, perdeu a mulher, condenou a balada mas no final deixou no ar que a “greLHa” sempre vence!

    Têm momentos e momentos na vida de de um homem pequeno gafanhoto. Um dia o cara lê a VIP achando que vai se tornar o mais entendido em single malts, blended e no outro o cidadão lê a Divina Comédia de Dante e vai morar meio afastado da cidade (ou numa ilha) porque precisa de um pouco de paz. Vai entender!

    Parabéns pelos textos. James Dater.. sei..

    Break on through!

    Comentário por Jimbow — 10/06/2009 @ 08:25

  13. Respondendo a uma das perguntas acima: Não, apesar de a primeira e a segunda parte terem sido publicados por Chico e a terceira por mim, os 3 textos foram escritos pela mesma pessoa, que preferiu não se identificar.

    Comentário por Maria Carolina Ferraz — 10/06/2009 @ 16:32

  14. Esse texto é a cara de uma pessoa que conheço…kkkkkkkkkkkkkkk. MUITO BOM!!!

    Comentário por Adriana — 20/06/2009 @ 12:46

  15. dava pra ele voltar pro casamento ainda….=P
    tem gente que faria issoo…hehhe
    mt boa a seriee…

    Comentário por Netoo — 25/06/2009 @ 22:02

  16. otimo texto.
    é assim mesmo que ocorre
    parabens
    ana

    Comentário por ana — 09/08/2009 @ 21:16

  17. tem nem o que comentar!
    MUITO BOM MESMO!!
    PARABÉNS!
    =*

    Comentário por Natasha Alves — 29/04/2010 @ 15:00


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