Quando escrevi O Fim de semana (im)perfeito deixei claro aos membros desse estimado blog que, apesar de leitor assíduo, não me converteria em colaborador.
Expus, que em virtude dos fatos narrados serem dotados, em sua grande maioria, de veracidade, eu não passava, como de fato não passo, de um mero contador de histórias, desprovido da capacidade criativa característica dos textos deste sítio eletrônico.
Mas confesso que gostei da experiência. Buscando uma forma de voltar ao blog, cheguei à seguinte conclusão, que não me impunha tanta criatividade, apenas memória.
Resolvi passar a relatar histórias, que, muito embora não tenham acontecido da exata forma narrada, guardam franca similitude com a versão verdadeira.
Pondo uma moldura diversa daquela em que os fatos realmente se sucederam, pretendo preservar outros personagens que, envolvidos na narrativa, não gostariam, por motivos óbvios, de ter sua identidade revelada.
Sendo assim, volto a destacar nesse preâmbulo que narrarei uma sucessão de fatos que todo homem já viveu, viverá, ou deveria ter vivido, formada por fatos verdadeiros – de credibilidade duvidosa – e inverídicos – de flagrante veracidade.
Carnatal é como sexo. Quando é ruim, é bom, e quando é bom, é bom pra caralho.
Dezembro, sexta-feira, duas e pouco da tarde (calma, não é aquela outra história), você desce do táxi, entra na fila e, ao ser indagado por uma mulher demasiadamente maquiada e de sorriso falso, responde: “Natal”. E lá se foi sua mala…
Carnaval fora de época exige fôlego, raça, e, claro, dinheiro trocado. Advertido desses requisitos, no trajeto para o aeroporto, você passou no banco para sacar dinheiro. Ao pedir o valor pretendido, a caixa abre aquela gaveta com dinheiro e você avista aqueles bolinhos amarrados, recém chegados do Banco Central. A coisa mais linda do mundo.
Achando que estava diante de uma verdadeira fortuna, você pergunta: “Quanto tem aí?”, a caixa responde: “Trezentos reais”. Possuído pelo espírito de Bill Gates, você, como se estivesse adquirindo o mundo, diz: “Me veja tudo.”
Quisera Tio Patinhas ter tanto VOLUME de dinheiro. Em termos comparativos, o bolo dos R$ 300, em nota de R$1, tinha a altura de um copo americano. Esse dado, aparentemente inútil, terá grande valia ao final deste conto. Você entenderá. Voltemos ao aeroporto.
Sua alegria é indisfarçável, check in feito, chopp gelado e amigos bons de farra. Você chega a pensar: tem algo errado, está tudo saindo como planejado… Se o avião não cair, meu Carnatal promete… Afinal de contas, se tudo der certo, dá merda no final…
Parênteses
(Poucos momentos são tão sublimes quanto um chopp à espera de um vôo, para farra, claro. Naquele momento, você traça as estratégias, as resenhas, as metas e, já que os planos são seus, o resultado. É perfeito.)
Tendo em vista as constantes visitas àquela cidade, você criou laços fraternais e, eventualmente, amorosos, esses últimos desfeitos sempre que se formam outros. Darwin estava certo, é a evolução natural das espécies.
Face às amizades construídas, você foi convidado por Dino, nome evidentemente fictício, para se hospedar na casa dele. Inveterado pela farra, Dino é uma das figuras mais simpáticas e desmanteladas que o Rio Grande do Norte já viu. Se isso é bom, no Carnatal é ainda melhor.
Após os trâmites normais, chegar em casa, encostar a mala, começar a beber e repassar as metas estabelecidas, é hora de ir para o bololô, o bundalelê, o quem-me-quer, isso, a putaria.
No primeiro dia, você opta pelo camarote que, segundo dizem, “dá mulher, não tem empurra-empurra e, quando o bloco termina, as negas vão tudo pra lá”. Você pensa: é como usar uma rede no rio de correnteza forte, basta ficar parado, que as piranhas param na sua. Gostei. Vamos ao camarote.
Apesar de não ser um especialista, você sabe que o primeiro dia de micareta é de suma importância para o alcance daquelas metas pré-estabelecidas.
“O primeiro gol é sempre um tiro de longe”, já dizia Dino. Você nunca entendeu direito o que isso queria dizer, deve ser um daqueles ditados que ninguém se atreve a explicar e cada um tem uma idéia particular do que significa, tipo “Sapato alto, areia fofa, adeus velocidade!”.
Entrando no camarote em horário estratégico, você sabe que os minutos iniciais serão decisivos para o sucesso do personagem interpretado. Você passa a imagem de um cara tranqüilo, fazendo um ar de quem está ali sem qualquer expectativa, tipo “vim aqui só dar uma passada, pois tenho que salvar o mundo amanhã de manhã”.
Passados os blocos, de qualidade sonora deprimente, o camarote bomba, as negas que pularam, de fato, entram no camarote. As que lá já estavam, permanecem. Seu personagem já não é mais o mesmo e você desce para o subsolo do camarote, onde uma boate congrega todos os foliões.
Chegando lá você estabelece seu território e liga o radar. Diante da escuridão, você opta por somente investir nas mulheres a menos de um metro e meio de distância. Aumentar esse raio de atuação seria contar com Deus e Santo Antônio e, sejamos francos, eles não estavam naquele inferninho.
Dentre as guerreiras ali localizadas, você nota uma com comportamento diverso das demais. Ela não grita, não abraça as outras amigas, não está completamente suada, não está aparentemente bêbada, não está com o short da irmã mais nova e não está com cara de um leopardo em busca de sua presa. Em suma, ela não é daquele mundo.
Você fica a encarando até cruzar um olhar. Os olhares se cruzam. Ela demora o tempo suficiente para você não se achar um qualquer. Dose renovada, você vai até ela e diz: “Oi, além de tímido, eu não sou muito desse negócio de micareta, então queria te fazer uma proposta…” Ela, rindo, responde: “E qual seria?” E você continua: “A gente podia começar isso aqui pelo fim…” Ela: “Como assim?” Desprovido de qualquer vergonha na cara, você arremata: “A gente se beija e, depois, nos apresentamos…”
Parênteses
(Com um litro de uísque na cabeça, numa boate subterrânea de um camarote em plena micareta, não havia nada muito inteligente para dizer, mas você se superou.)
Ela se vira e diz: “Desculpa, mas eu sou casada”.
Você pára e pensa consigo mesmo numa fração de milésimos de segundo: Deus só pode ta brincando, no meio dessa multidão, eu achei a única mulher casada…
Meio desnorteado, você perambula pelo camarote, agora decidido a pegar qualquer uma, eis que “o primeiro gol é sempre um tiro de longe”. Aquele ditado começava a fazer sentido.
Para ter sucesso nessa empreitada, você se dirige ao bar e pede mais uma dose. Cabeça baixa, abalado por não ter beijado a única mulher dali que não era uma descabelada suada, você pega sua dose e, ao se virar para voltar a sua turma, dá de cara com ela que, sem titubear, atira: “Eu não posso ser vista aqui com você”.
Procurando disfarçar o susto, você responde, sem muita explicação: “Fique ali, perto da saída da boate, que eu volto já…”
Sua meta agora é achar Dino, aliás, pegar o carro dele emprestado, afinal de contas, ir de táxi pro motel é coisa de gringo e puta, e você não é gringo.
Apesar de não concordar com nada disso, Deus, que é pai, ajuda e você encontra Dino rapidamente. Suas palavras são diretas: “Me dá a chave do carro, que eu vou sair com uma nega.” Com um ar de intriga, ele pergunta: “Vai pra onde?” Já sem paciência, você responde: “Vou dormir, amanhã cedinho tem Globo rural e eu quero ver uma matéria sobre piranha. Me dá essa porra!”. Bêbado, não entendendo direito a ironia, ele entrega a chave e, somente depois, se recorda que você não levou a carteira de motorista…
Na saída, você diz no ouvido dela: “Dê três minutos e doze segundos e saia, contorne o camarote e vá andando, eu lhe abordo.” Você diz isso com jeito de agente secreto e parte.
Ansioso, você passa no bar, pegas duas doses, e sai do camarote para esperar sua amada na esquina seguinte. Ela passa, você a chama, entrega a dose dela e entram no carro.
Antes de ligar o carro, começam os beijos, que progridem para os alisados, apertos e afins. Ela se revela uma pequena ninfo, face às carícias prematuras naquele local. Excelente.
Você liga o carro, o ar condicionado, o som. Ela não para de lhe beijar, lamber, a impressão é que você pegou um lagarto, de Viagra.
Copos colocados no suporte, você precisa achar um local para colocar aquela dinheirama toda. Ela, vendo a quantidade de dinheiro que sai do seu bolso, sem se ater ao valor das notas, pensa: “É mega sena, pai”.
Na pressa, você joga o dinheiro todo, estilo Silvio Santos, em cima do painel. Antes de sair, enquanto ela o beija incessantemente, você coloca a mão embaixo do banco e comemora. É Carnatal, não havia possibilidade de seu inestimável amigo Dino não ter consigo uma lança perfume.
Você dá partida, toma um porre de lança, dá um gole de uísque, devolve o copo pro suporte, dá um beijo nela, que, apressadinha, promove carícias nas regiões centro meridionais.
Você, facilitando a vida dela, abaixa as calças, permitindo-a um acesso mais livre ao seu objetivo. Mais um porre, gole no uísque, olhos virando, dedos do pé se contorcendo, curva à direita, curva à esquerda e pimba! Você dá de cara, pela contramão, com uma blitz, quase atropelando o guarda da lanterna.
Com som alto e uísque na cabeça, ela sequer nota a tragédia, persistindo no seu árduo trabalho de sopro. Ainda lesado do último porre, só lhe restam forças e discernimento para encostar o carro, o que faz com muito esforço e pouca técnica.
Simultaneamente, o guarda bate no vidro e ela suspende os trabalhos, levantando a cabeça com ar de susto, limpando discretamente os cantos da boca.
“Documento do veículo e habilitação”, pede o guarda. Antes de adotar qualquer medida, você enfia a mão no porta luvas e, não achando o documento, recorda-se que não está com a habilitação.
Observando o panorama, o guarda relata: “Veja bem, meu amigo, o senhor está nu, com uma lança perfume na mão, praticando atos libidinosos, bêbado e na contramão, o que eu faço com você?”
Situações extremas requerem… sinceridade, e você começa: “Seu guarda, pensei em tudo que podia dizer pro senhor nesse momento, mas vi que a melhor saída seria a verdade, como sempre. Então, aqui vai… EEEEu não sou daqui, eeeeeesse carro não é meu, éééééssa mulher não é minha, muito menos a lança…” Buscando um resultado prático, o guarda, interrompendo o discurso, indaga: “E esse dinheiro espalhado pelo carro?” Com ar de desespero, você responde: “Esse? Unxe, é todo do senhor! TODINHO!” Se vira pra ela e diz: “Amor, junta aí tudo… ah… você vai pagar o motel”.