O Homem Errado

19/02/2010

O Fim de Semana (Im)Perfeito

Filed under: Contos Errados — Chico Freitas @ 16:13

Esse texto tem dois outros capítulos. Os links seguem ao final do texto.

Imperioso, nesse preâmbulo, esclarecer que esse texto não busca atear fogo no cansativo debate machista/feminista, pretendendo apenas narrar uma sucessão de fatos que todo homem já viveu, viverá, ou deveria ter vivido. Essa história é formada por fatos verdadeiros – de credibilidade duvidosa – e inverídicos – de flagrante veracidade.

Janeiro, não importa o ano, sexta-feira, hora do almoço, sol de meio dia e quarenta e sete (graus). Reunião de amigos, churrascaria famosa da cidade e aquele sentimento de que você só volta para o escritório na segunda (ou terça, afinal, é janeiro).

Na cidade, o comentário é um só: a festa de logo mais à noite que, segundo especialistas, “vai dar umas negas que não saem de casa”. Esse dado arrasta multidões.

Você tem namorada, gosta dela e tem uma vida sentimental até estável. Ela é bonita, gente fina, educada e até compreensiva. Sejamos francos, você não tem do que reclamar. Apesar de tudo isso, uma voz dentro de você, iniciada já na terceira e última caneca de chope (você passou pra vodka), insiste em te falar.

Ela, a voz, começa relembrando seus tempos de solteiro, as farras, as paqueras (não necessariamente recíprocas) e seus amigos inseparáveis, alguns deles ainda solteiros. Aquilo tudo vai te inquietando, você morde os lábios, estala os dedos, escorrega a mão da testa ao queixo, como quem perdeu milhões na bolsa.

Em maior ou menor grau, esse sentimento atinge todos os “casados” da mesa, covardemente instigados pelos solteiros que, no fundo, os invejam.

Mas é sexta, não é dia de preocupação. A primeira garrafa de vodka já voou no pau. Assim como Cebolinha está para a Mônica e Coyote para o Papa-léguas, você passa, então, a tramar planos infalíveis para ir à festa desacompanhado, ou melhor, em bom português, escondido.

Plano montado e, registre-se, sem qualquer novidade diante dos já implementados: Desligar o celular, jantar fora com a namorada, vinho, reclamar de como está cansado, bocejar, pedir desculpas por estar tão desanimado, prometer estar “novo” amanhã, mais vinho, pedir a conta, bocejar, pedir o carro.

Vocês entram no carro, Frank Sinatra cantando Moon River (previamente programado). Ela vai morgar.

Buscando uma noite de amor intensa, efeito não pretendido daquelas duas garrafas de vinho, ela põe a mão na sua nuca fazendo um movimento suave, porém insinuante, que fazem seus dedos dos pés se contorcerem, parecendo um gavião, seus olhos virarem, parecendo um caça níquel, mas você não cede, parecendo um brocha. Afinal de contas, já dizia Capitão Nascimento, missão dada é missão cumprida.

Apesar da virilidade arranhada, você a deixa em casa. No momento em que ela passa na frente do carro, o farol a ilumina, você liga seu celular. 17 chamadas não atendidas. Você retorna para o último número (podia ser qualquer um dos 17) e dispara: vocês já estão aí? Tô chegando…

Você toca a campainha e abre-se a porta. Estão todos lá, solteiros (incluídos os viúvos e divorciados) e casados (namorados, casados, noivos, enrolados). Os “casados” olham pra você e, com aquela cara de cúmplice digna de “Os irmãos cara de pau”, perguntam: E ai, jantou onde? Pediu que vinho? Ela notou algo? Deu que desculpa? E comentam com ar de Nostradamus: acho que vai dar merda…

01:37, é hora de partir. Apenas metade dos presentes trocam os copos de vidro pelos de plástico, mesmo proporção dos que, de fato, arrastam para festa.

Ao chegar lá, suas expectativas, que já eram altas, são superadas. Aquele astral indescritível, troca de olhares na entrada, as “negas que nunca saem” estão todas lá. Você não sai tem tempo, é quase um “lançamento”

A essa altura, com chope e vodka no almoço, vinho no jantar e wishky no esquenta, você está com o bostômetro ligado, e a mil.

Nesse momento, prudente fazer uma pausa explicativa acerca de sua real intenção nessa noitada. Você está ali pra curtir, rever os amigos, ir numa balada, sair um pouco das garras do namoro.  Você não quer ficar, agarrar, pegar ninguém, não há razão para isso. Sua namorada não merece e, fazendo merda, fica mais difícil, ou demorado, fazer as pazes quando ela souber da sua escapadela. Essa noitada, se bem feita, revigora o relacionamento e, invariavelmente, guia à conclusão de que é melhor namorar do que estar na guerra. Voltemos à festa.

Mesa posta, o garçom te conhece “das antigas”, você se sente importante, prestigiado. Wishky na mesa, balde de gelo e tome energético. Que noite! Você estufa o peito, se sente bem, sua vida é perfeita!

Passando o olho na festa, como quem não quer nada, você a vê. É ELA. Do outro lado da pista, com cara de séria, impávida, dançando discretamente, ela parece um pavão.

Sabe a mulher por quem você foi a vida toda platonicamente apaixonado? A personificação de seus anseios… A sua deusa… A prova de que Deus, quando quer, sabe trabalhar… Aquela por quem você largaria tudo… ISSO MESMO… Aquela vagabunda que nunca te deu mole… Pronto, ela está lá…

Isso não muda sua noite, você está de bem com a vida, na companhia dos seus amigos, a presença dela não pode te afet… PIMBA! Ela está do seu lado. Como um unicórnio, ela se teletransporta para perto de você, que constata, está ainda mais linda.

Você não se abala, não paga pau, já está mais maduro, não é mais aquele menino, é só ignor…. Pimba! Você diz “oi”…

Estranhamente simpática, ela ri de seus comentários, fala que nunca mais te viu, que você está diferente (estudos de semiótica revelaram que esse último comentário é uma das técnicas femininas mais antigas de dizer: você mudou, agora está valendo, vem que tem).

Isso está errado! Agora que você achou sua cara metade essa mulher acha que pode estalar os dedos e ter você? Que num passe de mágica você vai jogar tudo pro alto? Que você não passa de um fantoche? Se impondo, demonstrando toda sua dignidade, você dispara: “aqui tá muito lotado, você não quer ir pra outro lugar?” Coerência sempre foi seu forte…

Sem hesitar, ela responde: “pode ser” (estudos de semiótica revelaram que “pode ser” no fantástico mundo feminino quer dizer SIM, como se SIM não existisse, vai entender…).

Pagamento da conta, momento de extremo estresse, poucos homens casados sabem lidar com esse procedimento. Eis a questão: você não pode ser visto saindo com ela, ao passo que não pode evidenciar esse fato.

De fato, longe de se divertir, conversar, dançar, arrumar uma pica pra coçar, as amigas de sua namorada nada mais fazem do que espreitar sua conversa. Você tem consciência, a dúvida está a seu favor. Claro, a primeira pergunta que sua namorada fará às amigas é: você viu BEI JAN DO? (estilo como viado fala, dando ênfase em casa sílaba) A resposta negativa retira a certeza necessária para determinar o final do namoro. Voltemos à festa.

Você chama o garçom-amigo, entrega para ele os cartões e o dinheiro (sim, você paga o dela, é a primeira vez), ele autoriza sua saída para o segurança. Você combina com ela: vou pegar o carro, quando o garçom chegar com os cartões, entregue-os na saída, que eu estarei na frente te esperando. Na frente, claro, não significa NA FRENTE, é mais para o lado, uns 5,43 metros.

Não é infalível, mas funciona. Geralmente, as amigas de sua namorada não chegam a sair da balada só pra checar isso. Se saírem, acredite, elas querem ir junto. Calma! Não ao mesmo tempo, cada uma dentro de si…

Vocês entram no carro, discretamente você liga seu celular, 29 chamadas não atendidas, desta vez um novo número apenas. Sua namorada já sabe de tudo, aliás, quase tudo. Você levanta a cabeça, enche o peito e diz em alto de bom som: Por favor, me veja a suíte 92…

To be continued…

Para ler o capítulo II clique aqui

Para ler o capítulo III clique aqui

A festa

Filed under: Contos Errados — Chico Freitas @ 16:05
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Você terminou um namoro recentemente. Não que você esteja feliz com isso, mas não estava dando certo mesmo. Há 15 dias você tenta restabelecer uma nova rotina, sem muito sucesso. Ainda saindo com alguns casais, você não se diverte o bastante.

Terceira semana sem ela, surge na cidade uma festa open bar tradicional, daquelas que todo mundo vai e todo mundo se acaba. Animação geral, contagiante. Você começa a recrutar amigos solteiros porque essa você não pode perder.

Expectativa crescendo, você não agüenta mais trabalhar durante a semana. Já esta à perigo, riscando os dias que faltam no calendário.

Chega o dia, é sábado à noite. A festa ta animada, bebida a vontade, como deveria ser.

O tempo passa, o tempo voa, e você que já bebeu demais, percebe que se perdeu dos seus amigos. Numa tentativa desesperada de achá-los – já que obviamente ninguém percebe o celular tocando – você, bêbado, sobe numa cadeira e olha ao redor.

Como já dizia a sabedoria popular, quem procura acha, mas nem sempre o que quer. Na sua busca por companhia você encontra sua ex, com outro.

Você finge que não ta nem ai, cumprimenta os dois, educado como manda a etiqueta. E menino, como manda o manual-de-qualquer-homem, sai de perto dos dois com um ciúme descomunal e se pega com as primeiras “periguetes” que aparece na sua frente.

Bebendo com raiva e beijando como se fosse o carnaval em Salvador, você vai perdendo os sentidos. Sua fala já está comprometida e você passa do estágio de raiva para o de aceitação. Acha um de seus amigos, e começa a chorar. Diz que ama ela, que ela era a mulher de sua vida, que as pessoas só dão valor as coisas quando as perde.

Seu amigo tenta te consolar e só ganha um vômito no pé como troco. Vômitos, além de serem embaraçosos, têm como efeito colateral te fazer se sentir melhor.

Você melhora, se recompõe e começa a beber de novo. Você já se esqueceu do encontro com sua ex, e agora ta dançando como John Travolta nos embalos de sábado à noite. Meio que sem querer você fica com outra garota, a terceira da noite (apesar de você não ter consciência de que é a terceira. As duas periguetes já não fazem parte de suas memórias, talvez nunca mais apareçam nela). Só que dessa vez a menina é bonita, atraente – pelo menos você tem certeza disso.

Você propõe à garota para irem embora. Ela aceita e diz que ta de carro, o que soa como poesia. Bêbado, você se sente um GPS humano e dita o caminho, apesar da fluência verbal afetada. Melhor motel da cidade, você é um bêbado rico.

Lá no quarto, você não consegue fazer muita coisa. Sem muita coordenação motora, desiste de cada posição depois de trinta segundos. Faz um papai e mamãe para terminar o serviço e decide que a banheira está convidativa.

Liga a banheira, tapa o ralo e deixa lá enchendo. Volta pra cama e conversa com sua musa. Sem querer, você acaba dormindo.

Sem ter muita certeza de quanto tempo cochilou, ela te acorda dizendo que a banheira já está transbordando. Você já está desnorteado, demorou três segundos pra perceber onde estava. Se levanta da cama, a banheira realmente está transbordando.

Com o passo bambo, você reza pra nossa-senhora-da-bicicletinha pra te dar equilíbrio. Mas Nossa senhora fulerou contigo e a queda foi certa. Tinha tudo pra dar errado mesmo.

A queda deve ter sido bonita. Cabeça – chão, sem escalas. E o sangue toma conta do ambiente… É até romântico, o vermelho agora é a cor da sua relação com ela, paixão à primeira vista.

Ela com cuidado descomunal, tenta estancar o corte, sem sucesso. Você pergunta se ela é médica, ela diz que é enfermeira. Tudo bem, não é a mesma coisa, mas dá fetiche.

Ela decide que você tem que ir ao hospital, você diz que não, mas se dá conta de que ela sabe do que ta falando.

No carro, dorme imediatamente e já acorda no hospital. Tira a carteira, entrega pra ela fazer a documentação e vai direto pra uma maca dormir. Acorda com ela te balançando mais uma vez, e se dá conta que esse ato já ta virando rotina. Você levou pontos na cabeça e quando passa a mão pra sentir o estrago, percebe que parte do cabelo está raspado, o que não é nada bom.

Ela mora só e te leva pra casa, você já tá meio desligado de tudo que ta acontecendo à sua volta e tudo fica preto.

Você acorda. Dessa vez por si só. Não tem noção de onde está e muito menos de que horas são. Está sozinho num quarto, de cueca. Se estica todo pra alcançar o celular na banca de cabeceira. Já passam das 14h.

Flashes vão passando na sua cabeça aos poucos. Você tem múltiplas ressacas. Moral, física e pontos na cabeça. Agora você já se lembra da parte relevante da coisa. Pelo menos já imagina onde está.

Apesar de tudo, você ri internamente de si mesmo. Gargalha, na verdade.

Ela entra pela porta, com aquelas mesinhas portáteis de café da manhã. Torradas, suco de laranja, ovo mexido e duas aspirinas no canto superior direito. Você olha aquela cena e percebe como é bom estar solteiro novamente e pensa “welcome back. Você vai ser feliz”.

No Elevador

Filed under: Contos Errados — Chico Freitas @ 16:05
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Eles moravam no mesmo edifício há anos, mas nunca tinham se falado. Ele sabia exatamente quem ela era. Sabia que ela falava Francês e Italiano. Sabia que já tinha tido três namorados diferentes desde que morava naquele prédio, o último deles gostava de comida japonesa e devia ser caseiro (pois sempre pediam delivery).

Ela não sabia da existência dele. Na verdade, ela chegou a se perguntar uma ou duas vezes quem seria o dono daquele Gol que tinha um amassado na porta desde sempre e nunca consertou.

Num domingo à noite chegaram em casa ao mesmo tempo. Ele, vindo da locadora, louco pra chegar na TV e assistir “Um Virgem de 40 anos” sozinho, com pipocas. Ela, banhada em lágrimas e maquiagem borrada pelo namoro que tinha acabado cerca de 10 minutos atrás.

A vaga dela era mais perto do elevador, que já estava lá no térreo. Ele, desajeitado, estaciona o carro de qualquer jeito e corre quando vê a porta do elevador se fechando, consegue interferir na porta com o braço, se enfiando de maneira estranha.

Ela fica constrangida de não ter tentado esperar por ele e esconde o rosto manchado pela maquiagem. Ele fica feliz de ver quem é sua companhia naquele transporte vertical e curioso por que ela tenta se esconder atrás de uma das mãos, ineficientemente.

Ele procura algum assunto pra puxar, mas não consegue fugir de clichês como o calor que está fazendo e prefere ficar calado. Ela começa a pensar que o elevador está demorando mais do que o normal. O elevador pára.

Ficam no escuro, torcendo pra que a energia volte nos próximos cinco segundos, o que não acontece, até que ele começa:

- Hoje deve ser meu dia de sorte.

- hahahaha. É o meu dia de sorte, pode ter certeza. – ela diz, agora sem tentar esconder o rosto manchado, se aproveitando do escuro.

- Você é a Cléo, não é? Como a atriz, Cléo Pires?

- Sou sim, na verdade meu nome vem de um livro do Roberto Freire, Cléo e Daniel, já leu?

- Na verdade, não. Sou Jorge, do 306. Jorge como, humm, Jorge Ben, sabe?

- hahahaha. Sei, sei. Então você é o dono do Gol amassado desde sempre?!

- Er… Marquei o conserto pra amanhã, juro. Complicado, essa vida é uma correria.

- Verdade, nem me fale.

Conversaram por mais alguns minutos. A conversa evoluiu de certa forma que eles até esqueceram que estavam num elevador e nem tentaram gritar por socorro. Ele ficava desejando que tivesse mais claro para apreciar a beleza dela e ela falava pelos cotovelos, das dores do mesmo.

- Só eu falo! Você é muito calado.

- É que não andei terminando nenhum relacionamento nos últimos minutos. – disse sorrindo com o canto da boca – Sua vida parece bem mais interessante no momento.

- E eu fico aqui me abrindo pra você. Depois que eu acabar, o que que resta?

- Pra abrir? Não sei, talvez um zíper. Ou dois…

- hahaha. Você ta demais. Apareceu na hora certa. Como nunca tinha notado sua presença por aqui antes?

- Não costumo chamar muito a atenção das mulheres. Provavelmente se não fosse esse elevador quebrado, ainda não teríamos nos conhecido, assim como nos últimos quatro anos.

- Quatro anos? Isso tudo que moramos no mesmo prédio e não nos conhecemos?

- Antes tarde do que nunca.

Ele tocou o rosto dela com uma delicadeza exagerada e ela se sentiu exageradamente à vontade para a situação. Acabara um namoro a menos de uma hora e estava se sentindo tranqüila ao ser tocada por um estranho. Beijaram-se e quase imediatamente a energia voltou.

Ela agora estava mais constrangida do que antes. Ele não sabia mais o que falar, olhou-se no espelho e viu seu rosto manchado pela maquiagem dela e tentou rir, sem saber se era o ideal a se fazer no momento.

O elevador parou e abriu as portas no andar dele. O silêncio imperava e ele pensou em convidá-la para assistir o filme. Ela notou o rosto dele manchado e sorriu. Ele a encarou como se quisesse falar com os olhos, mas deu apenas uma piscadinha e a porta se fechou.

Depois disso, sempre que tem uma oscilação de energia, os dois correm pro elevador, sem saber ao certo o porquê.

Elevador

A gente finge. E bem.

Filed under: A Mulher Certa,Teorias — Maria Carolina Ferraz @ 16:02
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Eu achava que o universo feminino era bastante conhecido entre os homens, mas, depois de um tempo, vi o quão equivocada eu estava. Principalmente no que diz respeito ao orgasmo. Deixa eu contar uma coisa, meninos: as mulheres fingem. É verdade sim, mesmo que sua namorada esteja do seu lado dizendo que é mentira minha. No fundo ela está pensando “essa rapariga quer foder meu namoro!”. Amiga, antes que eu consiga foder seu namoro, é melhor você confessar ao seu namorado que você também finge, senão quem vai acabar sem foder aqui é você.

Pois é, gente. Mulheres fingem mesmo. E não é porque são frígidas ou inexperientes. Essa inclusive é uma das grandes vantagens de ser do sexo frágil. Enquanto os homens broxam por conta do cansaço, estresse do cotidiano, e ainda têm que ouvir aquela balela da amada “amor, relaxa, acontece com todo mundo” (acontece uma porra com todo mundo!), nós, mulheres, podemos nos utilizar desse artifício divino para escapar de algumas situações desconfortáveis e sem deixar nossos parceiros frustrados e ainda com mais chances de broxar na próxima vez.

Mas, antes que a ala feminina me entenda mal, explico que a culpa para apelarmos para esse espetáculo teatral de gritos e gemidos é dos homens. Exato, da macharia que acha que abala o bangu em chamas. Essa turminha vê um videozinho chinfrim de pornô-chanchada e se acha o Alexandre Frota da geração. Para os fãs e adeptos, gostaria de avisar que aqueles vídeos de Alexandre Frota só podem ser para veados, porque mulher não sente tesão por um coroa, ex-galã global, que fazia sucesso em novela das oito quando a gente nem conseguia ficar acordada até esse horário. Além disso, se acesso ao youporn.com ajudasse, a indústria de apetrechos sexuais pararia de fabricar vibrador.

Continuando, o problema é que os homens já chegam chegando, se achando a última coca-cola (light, por favor) do deserto. Tem uns que até curtem umas preliminares (o que é um ponto positivo), mas terminam vacilando logo nela. Vão logo avacalhando, achando que o clitóris é um botão “player” que tem escrito “keep pressing all night long”. Para os leigos, explico: da mesma forma que apertar forte e inúmeras vezes o botão do elevador não vai fazê-lo chegar mais rápido, apertar a membrana feminina dessa forma não vai fazer a mulher gozar.

Pior é quando tentam dar uma de viris e descolados e rasgam nossa melhor lingerie de 300 reais, com a mais pura convicção de que vamos ver estrelas de tanta excitação por tal gesto demasiadamente cavalo. Gente, eu sei que às vezes é complicado segurar o ímpeto sexual, mas façam um esforcinho e dêem uma olhadinha na etiqueta da calcinha antes. É fácil: Renner, Marisa, okay, vai em frente. Fruit de La Passion, favor retirar delicadamente.

Outro fator importantíssimo: nossos cabelos fantásticos não são crinas de cavalos selvagens para serem puxados com toda força durante o sexo. Nós gastamos tempo e dinheiro para que eles ficassem lindos daquele jeito, e gostaríamos se, ao menos, eles pudessem continuar presos ao nosso couro cabeludo. Existem mulheres que curtem uma certa violência na cama; acho até saudável esse tipo de expressão sexual, mas saibam que não é um consenso geral. Essa frase idiota de “toda mulher gosta de apanhar, mas nem todo homem gosta de bater” do sadomasoquista do Nelson Rodrigues deve ser para justificar a falta de approach e aderência dele.

Pulando para o “vamos ver”, (tem vezes que a mulherada termina sem ver nada) a macharia termina sendo egoísta. Só quer saber de atingir o clímax, não pensa no prazer em comum, e termina fazendo de qualquer jeito, apressado mesmo, tipo cadela no cio. É o famoso “self-service”: comeu, acabou, lavrou. Na boa, a tecnologia avançou, já existem réplicas perfeitas de boneca inflável da Preta Gil (para os mais excêntricos) à Luana Piovanni, a seu gosto e critério. Mas não, os mocinhos se recusam a apelar para as moças emborrachadas e terminam descontando na gente com aquele sexo mecânico, que mais parece uma simulação com o Robocop na velocidade 3, sem nem sequer inovar na posição (papai-mamãe = “pegar na bunda é coca-cola”).

Aí, o que acontece: a mulher vai ficando emputecida e acaba fingindo que está gozando também, pra terminar logo aquela palhaçada. Dá lá seus gemidos, faz seu papel de boa parceira sexual, e já fica pensando que vai trocar aquela blusa da Ralph Lauren que comprou de aniversário para ele pela versão atualizada do Kamasutra.

Portanto, garotos que se encaixam no perfil, sejam mais perspicazes na hora H, porque olhar para a cara de suposta satisfação da sua companheira não é garantia de boa performance; vocês vão terminar nadando e morrendo na praia (leia-se: levando chute na bunda ou um par de gaia). E também vão perceber como suas namoradas vão começar a ter enxaquecas alucinantes com absurda freqüência e ficar menstruadas mais de uma vez no mês.

Eu / Ela

Filed under: Eu / Ela — Chico Freitas @ 15:09

Esse é o primeiro capítulo da série Eu/Ela. Para acompanhar toda a série clique aqui

Pedi pra ela namorar comigo… Ela disse que não. Não sei se pedi muita coisa. Mas sei aprender. E fui tentando. Expliquei coisas que não precisava, que ela talvez nem quisesse saber. Inventei coisas que não sabia. E continuei.

Ela provou por a + b que eu era uma roubada. Que tenho um comportamento que lhe envergonha, que minha vida é desregrada e não sei o quê. Que a gente nunca daria certo. Estatisticamente. Comprovadamente. Ta no dicionário, vide a bula. Qualquer analista de qualquer análise dirá isso! E eu respondia: sim, e daí?

Toda vez que estávamos juntos me sentia mais leve. Ela dançava perto de mim e girava como nas aulas de geografia que falam de movimento de translação ou rotação, sei lá. Beijava meu rosto e me dizia “vem”. Nunca deixei de ir. E ela nunca deixou de vir.

Às vezes a gente brigava. Ela dizia que “assim ia embora”, com raiva. Eu a puxava de jeito, sem raiva. E com que jeito se pode tomar algo que já é seu? Mas ela dizia que não era minha. Devolvia lhe pegando bem. E a tomava. E a sentia. Logo ela ficava mole voltando para mais.

Quando sorria, eu via seus dentes completos. Tinha seus dentes no meu ombro, pescoço… Na minha pele. Minhas mãos estão marcadas nos seus braços e em outras partes. Reclamava que puxava demais seus cabelos ao fazer carinho. E eu queria  tirá-la da minha cabeça, mas puxar meus próprios cabelos não resolve.

Expliquei que tenho hiperfoco. Que sou hiperativo. Dizem que tenho um QI bacana. Essa expressão “bacana” ela usava bastante. Ela dizia que era o que meu médico receitou. E me deixou doido. Quando me provocava de várias formas eu dizia: você vai me foder. Ela sorria e fazia o que você está pensando. E eu era feliz assim. Feliz, feliz mesmo. Como é ser feliz? Era eu.

Um dia disse que eu não podia ser tão rico. Que era melhor trabalhar menos. Explicou: gostou de mim sendo pobre mesmo. Sem carro, de táxi e tomando cerveja barata. E se eu fosse muito rico talvez não fosse a querer mais. Concordei: se ficar rico vou ter educação, passivos trabalhistas, comer com o garfo, etc. Vou deixar de tratá-la como uma puta na cama e minha princesa em qualquer lugar. Talvez a tratasse como esposa e isso parece tão chato. Pararia de dizer putarias sem fim, e de vez em quando, realizá-las um pouco mais além. Iria ser um homem de bem ou de bens. Então peraê.

Precavido, pedi pra ela nunca  ir embora. Não me deixar, por gentileza. Contou que não se sentia bem consigo própria. Que tinha histórias mal resolvidas. Já senti isso tantas vezes e, por isso, fui compreensivo como nunca achei que seria. Até porque já usei tantas vezes esse discurso. Acho que no fim as pessoas se identificam. Os iguais se atraem. E o pior: se distraem. E fui isso: uma distração.  Ela era igual a mim, lembra? Tantas me distraíram, mas nenhuma tanto assim.

Ainda distraída, ela me explica o porquê da confusão em sua cabeça: ”Eu até um dia desses ia casar, ter filhos, etc e tal. Tinha noivo e agora estou aqui deitada com você, sem saber se vou ou se fico.”

- Você ia ter filhos bonitos?

- Com certeza!

- Te dou filhos lindos com dentes fortes pra nascer igual a jacaré: já mordendo.

Gostava do meu papo de bêbado. Do sem pé nem cabeça. E sorria inteira,  encaixada em mim,  enquanto fios de cabelo se espalhavam na cama e seus pelos cobriam minha perna.

Quando estava ficando bom, ela interrompia. Era sempre assim: ouvia mil elogios em seqüência já esperando o “masssssssssssss”. Então, quando tudo estava ótimo, quando EU já não me via de outra forma, escuto: Tenho que ir embora. Preciso ir embora.

- Vá, coração, prefiro que você se resolva logo.

- Coração é fogo!!!

- Tenho que recuperar minha canalhice. Porque no fim, eu to aqui e você vai embora.

Me despedi, sem querer, com toda a calma do mundo. Como quem explica algo natural, óbvio. Articulei bem as palavras e gesticulei pausadamente. Tentei organizar minhas idéias e acreditar que era melhor assim. Pensei rapidamente em dizer “te amo”, mas não acho que a amava. Apesar disso quis lhe dá filhos fortes, com dentaduras bem resolvidas e tudo mais. Quis ela ao meu redor em qualquer movimento. Quis ela comigo por mais tempo.

Enquanto levantava-se, pensei em fazer uma proposta e, se não funcionasse, uma contraproposta. Um pedido. Senti que era agora ou nunca. Sabe como é? A hora é essa. Masssssssssss fiquei calado. Como o cara que se alimenta do seu estômago, me alimentei do meu sentimento e fiquei quieto.

Enquanto se vestia não disse nada. Certa vez um bem-sucedido me disse que é preciso saber perder. E eu perdi deitado. Foi tudo tão rápido. Quando pensei melhor, repensei, quis levantar, a porta já estava fechada e já não ouvia  o som do seu salto alto. Mas o seu cheiro ainda estava comigo.

23/07/2009

Audio Trip

Filed under: Audio Trip — Chico Freitas @ 13:42

Essa semana a Audio Trip convida Igor Schwambach para compartilhar conosco seu gosto musical.

Ele mesmo descreve como selecionou e como dispôs as músicas para nós:

“Diferente das outras audiotrips (sem querer desmerecer-las), vocês vão notar que eu não foquei só em uma música, mas sim no CD como um todo. Fiz isso pois acho que a música pode ser melhor compreendida quando faz parte do todo, e não ela por ela mesmo. Botei também uns vídeos das bandas tocando ao vivo (e não os clipes), porque acho que dá pra captar melhor a vibe dos caras. Como sei que nem todo mundo tem tempo, e saco, pra ouvir um CD todo, botei um asterisco (*) do lado das tracks (sem querer desprezar as outras. Claro!) como sugestão do que vocês devem escutar.  Deixo com vocês meu Twitter e  Orkut para quem quiser trocar alguma idéia. Valeu, galerinha!”

Twitter: http://twitter.com/IgorSw

Orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?rl=ls&uid=10866575123178576781

Para curtir a Audio Trip do Igor, clique na imagem abaixo:

audio trip V

21/07/2009

Cromossomo Y

Filed under: Contribuições Especiais — Chico Freitas @ 00:36

Esse texto é de contribuição especial de uma carioca, leitora assídua do Blog, Taíssa Toledo.

Também quer ver seu texto publicado aqui no blog? Envie para mail.ohomemerrado@gmail.com.

Curtam!

***

A gente reclama, fala que nenhum presta , que no final, mesmo os mais comportadinhos, sempre pensam na mesma coisa. Mas o que a gente nunca quer é assumir a nossa culpa. Sim, nós mulheres somos completamente culpadas pelo comportamento masculino atual.
Se eles são uns cachorrões ordinários sem coração que vivem pensando estratégicamente em como alcançar o que temos entre as pernas, a culpa é unicamente nossa, afinal, o comportamento deles depende do nosso e eu não poderia dizer que me orgulho das atitudes de certas companheiras do meu gênero.

Existem dois tipos de situações clássicas:

a) O cara é super simpático, fofo, chega pedindo seu telefone, te chama pra sair, ir num barzinho, pegar um cinema ou simplesmente vocês começam a ficar por nenhum motivo em especial e acabam criando uma mini-ligação, um casinho. Esse é o chamado peguete fixo, step. E o que acontece com ele quando chega na famosa hora do “vai ou racha”? Se ela não ta apaixonada, ou ela vai ser má o suficiente pra fazer com que ele queira namorar, só porque ela não tem nada de mais interessante pra fazer e isso a conforta; ou então, ela fica enjoada com tanta atenção e carinho e joga ele pra escanteio.
O cara apenas pensa, “onde foi que eu errei? O que eu fiz que não a agradou?”
conclusão: ele vira mais um putão!

b) O cara chega chegando, cheio de intimidade que não tem, é ousado e sabe como falar. Após conquistar a presa do momento, ele simplesmente não sabe o que fazer e larga. Pra que tentar com a mesma vítima o passo número 2 se ele pode conseguir o passo número 1 com tantas outras sendo muito mais divertido? Esse é o famoso canalha, arrebatador de corações.
E como a menina fica depois disso? Apaixonada, simplesmente porque ele a esnobou, não se importou e não deu valor.
conclusão: ele é um putão!

Realmente, somos contraditórias, talvez seja natureza. Vai entender…
Afinal, quem quer um putão?

15/07/2009

A Regininha

Filed under: Contos Errados — Chico Freitas @ 01:46

-          E depois não me venha pedir para voltar! Seu cachorro!

Deram-se as costas, como se fossem os antigos desafios de faroeste, e prometeram pelo céu e pela terra que nunca mais iriam se falar.

Ela foi pra casa, chorosa, e se afundou em dois potes de sorvete Kibon. Um de creme e outro de chocolate, e pegando uma colher de cada, até o fim, adormeceu.

Ele pegou o celular e ligou para todos os amigos solteiros, anunciando sua volta ao time. Euforia geral, a sensação legitima de quem recuperou mais um soldado, no meio de uma trincheira de uma guerra qualquer. Ele definitivamente não adormeceu.

Ela chorou por mais uma semana, principalmente quando que soube que ele tinha ficado com a Regininha (ah, a Regininha, sempre existe uma Regininha!)*, que ela tanto odiava.

A Regininha era da faculdade dele. Ela nunca tinha ido com a cara da danada da Regininha, mas ele sempre jurava que eram apenas amigos, e ela ficava emputecida, pois nada podia fazer.

Ia rolar um reencontro de amigos do tempo do colégio, fazia cinco anos que eles tinham se formado (ele e ela tinham estudado juntos desde a 7ª série e namoravam desde a 8ª, formavam aquele casal que todo mundo tinha certeza que iriam casar, feitos um para o outro).

Decidiram que a festa de reencontro seria à fantasia, pra dificultar os reconhecimentos e a festa ficar mais interativa, apesar de que todos estavam muito mudados desde a época de colégio. E sejamos sinceros, todo mundo adora festa à fantasia!

Ele decidiu que iria de “V de Vingança”. Ela pegou emprestada de uma amiga a “Mulher-Gato”.  Ambas as fantasias mascaradas, propositalmente, no maior estilo “quem deve, teme”. E que seja posto em evidencia que não se falavam desde a cena digna de faroeste.

O fato é que eles poderiam até subir no mesmo elevador e não se reconheceriam. Não que isso tenha acontecido.

Ela chegou mais cedo, aflita, observou bem o ambiente pra depois concluir que tudo estava em ordem. Reencontrou amigas, deu a noticia arrasadora, para espanto de todas. Mas mentiu, disse que já estava bem demais, pronta pra outra, que a vida não para e muitas outras coisas mais.

Ele estava em outra festa, com a Regininha. E quando a Regininha perguntava como estava o relacionamento com a ex, ele definia com segurança: “saudavelmente hipócrita” e depois completava, deixando bem claro, “Regininha, você é muito melhor do que ela… em tudo!”.

Deixou a Regininha em casa e foi para a festa reencontrar ex (colegas e namorada). A cada semáforo ele encaixava mais uma parte da sua fantasia, desajeitado, e por fim, a máscara.

Chegando lá, já tinha passado da meia noite.  Todo tipo de princesa da Disney (branca de neve, a adormecida, a bela, Ariel, etc)  já estavam parecendo a Cinderela depois das doze badaladas. A quantidade de garrafas vazias eram desproporcionais à quantidade de pessoas no ambiente e ele que também já não estava sóbrio há tempos, pegou uma dose de uísque.

Ele tentou dar uma sacada geral no ambiente. Mas fazia tempo que não via aquela turma e com todos fantasiados era missão impossível reconhecer alguém, então decidiu que iria re-conhecer quem lhe apetecia.

Integrou-se na festa com facilidade, e encostado num canto da parede, não conseguia tirar os olhos da mulher-gato, que fazendo juz à fantasia dançava de forma fenomenal.

Ela já estava bêbada demais e dançava como se não tivesse ninguém ao seu redor, inerente a qualquer coisa que estivesse acontecendo. Entre Feras, Lobos maus e todo tipo de fantasia, nada chegava até ela.

Ele tinha certeza que aquela mulher dentro daquela roupa de couro brilhante não tinha estudado com eles. Ele a teria notado, obviamente. Deveria ser convida de algumas das meninas ou na pior das hipóteses namorada de alguém.

Resolveu que ela seria dele. Não demorou muito para ter convicção de que ela era solteira e foi buscar o que deveria ser seu.

Ela, que nunca conseguia segurar o riso diante de cantadas baratas, parou de dançar pra rir da cara dele quando ele chegou com “essa gata mia?”. De alguma forma, provavelmente culpa do álcool, ela decidiu que gostava de homens que a faziam rir e ao invés de responder, apenas lhe deu um beijo.

Ele ficou louco com aquilo tudo. Sua “gata” além de miar, mordia, lambia e arranhava.

Eles simplesmente não conversavam, não paravam de se beijar.  E quando a carona dela a puxou pra ir embora, ela o fez prometer que se veriam no dia seguinte. Ele concordou e pediu seu numero, ela deu e logo foi embora.

Então ele ficou parado, cerca de 3 minutos, sem acreditar. 6782-9988? Como assim? Ela errou algum número, com certeza. Não podia ser. Chegou a rir, porque claro que não podia ser ela. Sem sombras de dúvidas ela errou, ou foi alguma ironia. Achou chato já que não poderia encontrar com a mulher-gato no outro dia, não com um número errado. Logo ela que ele achou tão melhor que a Regininha.

*Frase de Luís Fernando Veríssimo em “As Comédias da Vida Privada”.

13/07/2009

Curtas

Filed under: A Mulher Certa — Maria Carolina Ferraz @ 21:39

Prendado

“Pode me cozinhar
Pintar e bordar
À vontade

Só deixe avisado
quando você cansar
de brincar de dona de casa”

***

Prazer de comer bem

“Cozinhe
tempere
jogue pimenta
e sal à gosto

mas, depois de comer
não venha me dizer
que o gás acabou
e me negar fogo”

08/07/2009

Programada

Filed under: Contos Errados — Chico Freitas @ 14:19
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A Ana era uma mulher decidida. Uma mulher de objetivos, de metas, de planos e projetos. Completamente programada para tudo. Tão programada que sempre faltava espaço no seu dia pra qualquer tipo de surpresa.

- Vem pra cá, meu amor… A cama e mais umas coisinhas tão te esperando.

- Eu vou, mas veja bem, são 16:15, você tem que gozar até às 16:35, que às 16:40 eu preciso entrar no banho, daí às 17h quero estar pronta para encontrar a Lucinha no shopping às 17:30h.

- Mas o shopping é do outro lado da rua.

- Sempre temos que ter uma margem de erro, meu bem. Margens de erro. Aprenda isso pra sua vida.

Ela era assim. Eu não me incomodava, porque se tentasse argumentar, ela vinha com aquele papo que eu era muito novo pra entender tudo aquilo, que eu ainda não tinha responsabilidades e sei la mais o que, e isso me incomodava mais do que as suas programações, então ficava calado.

Minha vida era tranqüila. Passava a semana na casa dos meus pais e nos finais de semana ficava com a Ana. Mesmo quando ela trabalhava aos sábados.

E foi num desses sábados que, enquanto ela tomava seu banho bem programado, que eu peguei seu blackberry à procura de qualquer joguinho.  Como uma criança apertando botões sem saber o que ta fazendo, acabei tomando conhecimento dos seus horários e locais das reuniões do dia, sem querer, juro.

Ela saiu do banho, comeu alguma coisa e foi trabalhar, tudo conforme os planos.

Acontece que desde a quinta feira a Rita (que morava à duas quadras da Ana) me ligava copiosamente. E quando Ana bateu a porta, de posse dos conhecimentos que tinha acabado de adquirir, cedi aos pedidos da Rita:

-Pode vir.

- Ela não está em casa?

- Certo como a programação da TV a cabo, nada dela até às 17h.

Rita chegou, sem pressa. Eram 13h e o blackberry da Ana, que não é bom em guardar segredos, me contou que ela só voltaria às 17:30h.

Estávamos no segundo coito e no final da primeira garrafa de vinho quando a Ana chegou, nos surpreendendo. Ela me olhou com aquela cara e não falou nada, como se esperasse que eu dissesse algo primeiro, algo do tipo “não é nada disso que você está pensando”. Mas não falei, evitando o clichê. Enchi meu pulmão e falei com uma tranqüilidade assustadora:

- Ana, o que você faz aqui?

- Esta é a MINHA casa.

- E a reunião com o Wal Mart?

- Cancelada.

- Mas a reunião da Odebrecht duraria ao menos duas horas!

- Durou menos. Calculei mal a margem de erro.

- E a Votorantim? Hein? Hein? O que aconteceu com a Votorantim?

- Ai meu deus! A Votorantim!

- Isso, corra, corra que dá tempo! Lembre-se da margem de erro!

E ficou por isso mesmo. Nunca mais se tocou no assunto. Algumas amigas da Ana me falaram que ela tomou a culpa pra si, porque não seguiu sua agenda (“gente, a Votorantim! Como pude simplesmente esquecer a Votorantim?”), mas que um dia vai me pegar com a mão na massa e tudo estará acabado. Só que aquela não contava, não um flagra fora dos planos. Mas que um dia… ah, um dia eu ia ver só!

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