Esse texto tem dois outros capítulos. Os links seguem ao final do texto.
Imperioso, nesse preâmbulo, esclarecer que esse texto não busca atear fogo no cansativo debate machista/feminista, pretendendo apenas narrar uma sucessão de fatos que todo homem já viveu, viverá, ou deveria ter vivido. Essa história é formada por fatos verdadeiros – de credibilidade duvidosa – e inverídicos – de flagrante veracidade.
Janeiro, não importa o ano, sexta-feira, hora do almoço, sol de meio dia e quarenta e sete (graus). Reunião de amigos, churrascaria famosa da cidade e aquele sentimento de que você só volta para o escritório na segunda (ou terça, afinal, é janeiro).
Na cidade, o comentário é um só: a festa de logo mais à noite que, segundo especialistas, “vai dar umas negas que não saem de casa”. Esse dado arrasta multidões.
Você tem namorada, gosta dela e tem uma vida sentimental até estável. Ela é bonita, gente fina, educada e até compreensiva. Sejamos francos, você não tem do que reclamar. Apesar de tudo isso, uma voz dentro de você, iniciada já na terceira e última caneca de chope (você passou pra vodka), insiste em te falar.
Ela, a voz, começa relembrando seus tempos de solteiro, as farras, as paqueras (não necessariamente recíprocas) e seus amigos inseparáveis, alguns deles ainda solteiros. Aquilo tudo vai te inquietando, você morde os lábios, estala os dedos, escorrega a mão da testa ao queixo, como quem perdeu milhões na bolsa.
Em maior ou menor grau, esse sentimento atinge todos os “casados” da mesa, covardemente instigados pelos solteiros que, no fundo, os invejam.
Mas é sexta, não é dia de preocupação. A primeira garrafa de vodka já voou no pau. Assim como Cebolinha está para a Mônica e Coyote para o Papa-léguas, você passa, então, a tramar planos infalíveis para ir à festa desacompanhado, ou melhor, em bom português, escondido.
Plano montado e, registre-se, sem qualquer novidade diante dos já implementados: Desligar o celular, jantar fora com a namorada, vinho, reclamar de como está cansado, bocejar, pedir desculpas por estar tão desanimado, prometer estar “novo” amanhã, mais vinho, pedir a conta, bocejar, pedir o carro.
Vocês entram no carro, Frank Sinatra cantando Moon River (previamente programado). Ela vai morgar.
Buscando uma noite de amor intensa, efeito não pretendido daquelas duas garrafas de vinho, ela põe a mão na sua nuca fazendo um movimento suave, porém insinuante, que fazem seus dedos dos pés se contorcerem, parecendo um gavião, seus olhos virarem, parecendo um caça níquel, mas você não cede, parecendo um brocha. Afinal de contas, já dizia Capitão Nascimento, missão dada é missão cumprida.
Apesar da virilidade arranhada, você a deixa em casa. No momento em que ela passa na frente do carro, o farol a ilumina, você liga seu celular. 17 chamadas não atendidas. Você retorna para o último número (podia ser qualquer um dos 17) e dispara: vocês já estão aí? Tô chegando…
Você toca a campainha e abre-se a porta. Estão todos lá, solteiros (incluídos os viúvos e divorciados) e casados (namorados, casados, noivos, enrolados). Os “casados” olham pra você e, com aquela cara de cúmplice digna de “Os irmãos cara de pau”, perguntam: E ai, jantou onde? Pediu que vinho? Ela notou algo? Deu que desculpa? E comentam com ar de Nostradamus: acho que vai dar merda…
01:37, é hora de partir. Apenas metade dos presentes trocam os copos de vidro pelos de plástico, mesmo proporção dos que, de fato, arrastam para festa.
Ao chegar lá, suas expectativas, que já eram altas, são superadas. Aquele astral indescritível, troca de olhares na entrada, as “negas que nunca saem” estão todas lá. Você não sai tem tempo, é quase um “lançamento”
A essa altura, com chope e vodka no almoço, vinho no jantar e wishky no esquenta, você está com o bostômetro ligado, e a mil.
Nesse momento, prudente fazer uma pausa explicativa acerca de sua real intenção nessa noitada. Você está ali pra curtir, rever os amigos, ir numa balada, sair um pouco das garras do namoro. Você não quer ficar, agarrar, pegar ninguém, não há razão para isso. Sua namorada não merece e, fazendo merda, fica mais difícil, ou demorado, fazer as pazes quando ela souber da sua escapadela. Essa noitada, se bem feita, revigora o relacionamento e, invariavelmente, guia à conclusão de que é melhor namorar do que estar na guerra. Voltemos à festa.
Mesa posta, o garçom te conhece “das antigas”, você se sente importante, prestigiado. Wishky na mesa, balde de gelo e tome energético. Que noite! Você estufa o peito, se sente bem, sua vida é perfeita!
Passando o olho na festa, como quem não quer nada, você a vê. É ELA. Do outro lado da pista, com cara de séria, impávida, dançando discretamente, ela parece um pavão.
Sabe a mulher por quem você foi a vida toda platonicamente apaixonado? A personificação de seus anseios… A sua deusa… A prova de que Deus, quando quer, sabe trabalhar… Aquela por quem você largaria tudo… ISSO MESMO… Aquela vagabunda que nunca te deu mole… Pronto, ela está lá…
Isso não muda sua noite, você está de bem com a vida, na companhia dos seus amigos, a presença dela não pode te afet… PIMBA! Ela está do seu lado. Como um unicórnio, ela se teletransporta para perto de você, que constata, está ainda mais linda.
Você não se abala, não paga pau, já está mais maduro, não é mais aquele menino, é só ignor…. Pimba! Você diz “oi”…
Estranhamente simpática, ela ri de seus comentários, fala que nunca mais te viu, que você está diferente (estudos de semiótica revelaram que esse último comentário é uma das técnicas femininas mais antigas de dizer: você mudou, agora está valendo, vem que tem).
Isso está errado! Agora que você achou sua cara metade essa mulher acha que pode estalar os dedos e ter você? Que num passe de mágica você vai jogar tudo pro alto? Que você não passa de um fantoche? Se impondo, demonstrando toda sua dignidade, você dispara: “aqui tá muito lotado, você não quer ir pra outro lugar?” Coerência sempre foi seu forte…
Sem hesitar, ela responde: “pode ser” (estudos de semiótica revelaram que “pode ser” no fantástico mundo feminino quer dizer SIM, como se SIM não existisse, vai entender…).
Pagamento da conta, momento de extremo estresse, poucos homens casados sabem lidar com esse procedimento. Eis a questão: você não pode ser visto saindo com ela, ao passo que não pode evidenciar esse fato.
De fato, longe de se divertir, conversar, dançar, arrumar uma pica pra coçar, as amigas de sua namorada nada mais fazem do que espreitar sua conversa. Você tem consciência, a dúvida está a seu favor. Claro, a primeira pergunta que sua namorada fará às amigas é: você viu BEI JAN DO? (estilo como viado fala, dando ênfase em casa sílaba) A resposta negativa retira a certeza necessária para determinar o final do namoro. Voltemos à festa.
Você chama o garçom-amigo, entrega para ele os cartões e o dinheiro (sim, você paga o dela, é a primeira vez), ele autoriza sua saída para o segurança. Você combina com ela: vou pegar o carro, quando o garçom chegar com os cartões, entregue-os na saída, que eu estarei na frente te esperando. Na frente, claro, não significa NA FRENTE, é mais para o lado, uns 5,43 metros.
Não é infalível, mas funciona. Geralmente, as amigas de sua namorada não chegam a sair da balada só pra checar isso. Se saírem, acredite, elas querem ir junto. Calma! Não ao mesmo tempo, cada uma dentro de si…
Vocês entram no carro, discretamente você liga seu celular, 29 chamadas não atendidas, desta vez um novo número apenas. Sua namorada já sabe de tudo, aliás, quase tudo. Você levanta a cabeça, enche o peito e diz em alto de bom som: Por favor, me veja a suíte 92…
To be continued…
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